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O Batismo do Senhor e a Crisma - O Dom do Espírito Santo na Vida Cristã

  • 13 de jan.
  • 6 min de leitura

Atualizado: 15 de jan.

Introdução


As leituras do Domingo do Batismo do Senhor apresentam de modo explícito a descida do Espírito Santo sobre Cristo no momento de seu Batismo no Jordão. Os textos de Isaías, dos Atos dos Apóstolos e dos Evangelhos convergem para esse ponto central: o Espírito repousa sobre Jesus e manifesta publicamente sua identidade e missão.

Essa realidade, porém, suscita uma questão teológica recorrente: se o Espírito Santo é recebido no Batismo, como a Igreja pode ensinar que existe um sacramento distinto — a Crisma — no qual o fiel recebe a plenitude do Espírito Santo?

Responder corretamente a essa pergunta exige distinguir cuidadosamente três níveis diferentes: o evento cristológico, a comunicação do Espírito na história da salvação e a economia sacramental própria da Igreja. Sem essa distinção, corre-se o risco de opor indevidamente Batismo e Crisma ou de reduzir a Crisma a um simples acréscimo disciplinar.


Vasos com os santos óleos do Batismo, Crisma e Unção dos Enfermos diante de sacerdotes reunidos em celebração litúrgica.


O Batismo do Senhor: evento cristológico, não modelo ritual direto


No Evangelho segundo Mateus, Jesus se apresenta a João para ser batizado. O Espírito Santo desce sobre Ele em forma visível, e a voz do Pai o proclama Filho amado (cf. Mt 3,13–17). Trata-se de uma cena de forte densidade teológica, mas seu sentido precisa ser bem compreendido.

O Batismo de Jesus não é um rito de conversão nem de purificação pessoal. Cristo não recebe algo que lhe faltava. Ele não é batizado para remissão dos pecados nem para receber a graça santificante. Ele é o Filho eterno, consubstancial ao Pai, e possui o Espírito em plenitude desde sempre.

O que acontece no Jordão é uma manifestação pública — uma verdadeira epifania trinitária — e, ao mesmo tempo, uma investidura messiânica. Aquilo que Cristo é desde sempre passa a ser revelado na história.

O profeta Isaías já havia anunciado esse momento:

“Eis o meu servo, a quem sustento, o meu escolhido, em quem me comprazo. Pus sobre ele o meu Espírito.”(Livro de Isaías 42,1)

São Pedro retoma essa mesma lógica em Atos dos Apóstolos:

“Deus ungiu Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com poder.”(Atos dos Apóstolos 10,38)

Essa unção não é gradual, nem mediada pela Igreja, nem repetível. Ela pertence à identidade única de Cristo como Messias. Por isso, o Batismo do Senhor não estabelece diretamente a forma ritual dos sacramentos cristãos, mas revela a fonte de onde eles procedem.


Cristo como fonte do Espírito e a Igreja como mediadora sacramental


Aqui se impõe uma distinção essencial. Cristo não recebe o Espírito por participação; Ele é aquele que o comunica. Os fiéis, ao contrário, recebem o Espírito por participação, segundo uma ordem sacramental instituída por Cristo e confiada à Igreja.

A Igreja nunca ensinou que o Batismo seja “incompleto” ou que nele o Espírito Santo não seja dado. Pelo contrário, ensina-se que o Batismo comunica verdadeiramente o Espírito, apaga o pecado, concede a filiação divina e incorpora o fiel a Cristo.

O que a Igreja afirma é que a graça batismal, embora plena em si mesma, é ordenada a um crescimento e a um fortalecimento específicos. O dom do Espírito se comunica de modo real no Batismo, mas de modo progressivo, participativo e finalisticamente distinto ao longo da vida cristã.


A distinção bíblica entre Batismo e Crisma nos Atos dos Apóstolos


Os Atos dos Apóstolos oferecem um dado decisivo. Em Samaria, muitos haviam sido batizados, mas o texto afirma explicitamente que o Espírito Santo ainda não havia descido sobre eles. Somente após a imposição das mãos dos Apóstolos é que eles recebem o Espírito:

“Então lhes impunham as mãos, e eles recebiam o Espírito Santo.”(At 8,17)

Algo semelhante ocorre em Éfeso, quando São Paulo impõe as mãos sobre discípulos já batizados:

“O Espírito Santo veio sobre eles.”(At 19,6)

Esses textos mostram com clareza quatro elementos fundamentais: a distinção real entre Batismo e um rito posterior, a mediação apostólica, a objetividade da comunicação do Espírito e a existência de efeitos espirituais próprios.


Fundamento cristológico nos Evangelhos


Após a ressurreição, Jesus sopra sobre os Apóstolos e diz:

“Recebei o Espírito Santo.”(Evangelho segundo João 20,22)

No entanto, pouco depois, Ele também lhes ordena:

“Permanecei na cidade até que sejais revestidos da força do alto.”(Evangelho segundo Lucas 24,49)

Mesmo os Apóstolos — que já criam, já tinham sido enviados e já haviam recebido o Espírito de algum modo — aguardam um fortalecimento específico para a missão. Isso confirma a lógica da comunicação progressiva do Espírito segundo finalidades distintas, que culminará em Pentecostes.


Termos originais fundamentais


A própria linguagem bíblica ajuda a compreender a especificidade da Crisma.


Χρίσμα – chrísma (KRÍS-ma: unção real, consagração pelo Espírito Santo)


O termo aparece em 1Jo 2,20.27 e indica uma unção verdadeira, não apenas simbólica. Daí deriva o nome Crisma, que designa tanto o óleo consagrado quanto o sacramento. A unção expressa a participação do fiel na missão de Cristo como Sacerdote, Profeta e Rei.


Ἐπίθεσις τῶν χειρῶν – epíthesis tōn cheirōn (e-PÍ-the-sis ton KHEI-ron: imposição das mãos)


A expressão aparece em At 8,17 e Hb 6,2. A Carta aos Hebreus inclui a imposição das mãos entre os fundamentos da doutrina cristã, mostrando que não se trata de um gesto acidental, mas de uma prática apostólica estruturante.


Confirmatio (latim: confirmação, fortalecimento, ratificação)


Na tradição latina, o nome do sacramento destaca seu efeito: o fortalecimento espiritual e a estabilidade na fé e na pertença eclesial.


A Crisma na Tradição e no Magistério da Igreja


Desde os primeiros séculos, a Igreja reconhece um rito distinto ligado à autoridade apostólica. Santo Hipólito de Roma descreve, na Tradição Apostólica, a unção pós-batismal realizada pelo bispo. Santo Ambrósio ensina que essa unção completa o Batismo com o dom do Espírito Santo.

O Magistério confirma essa compreensão. O Catecismo da Igreja Católica ensina que a Confirmação aperfeiçoa a graça batismal, concede uma força especial do Espírito Santo e liga mais perfeitamente o fiel à Igreja (cf. CIC 1285–1321). O Concílio de Trento define a Confirmação como verdadeiro sacramento, distinto do Batismo.


A Crisma na Suma Teológica de São Tomás de Aquino


São Tomás de Aquino dedica à Confirmação a questão 72 da Suma Teológica. Para ele, o sacramento é ordenado à perfeição da vida espiritual. O Batismo corresponde ao nascimento espiritual; a Confirmação, à maturidade.

Tomás afirma ainda que o bispo é o ministro ordinário da Confirmação por causa da sucessão apostólica e da unidade da Igreja. O sacramento imprime caráter espiritual permanente, assim como o Batismo e a Ordem, configurando o fiel de modo estável para o testemunho público da fé.


“Isso não está na Bíblia?” — a resposta da própria Escritura


A objeção de que a Crisma “não está na Bíblia” ignora dados fundamentais da própria Escritura. Cristo confere autoridade à Igreja, promete a assistência do Espírito e reconhece a mediação apostólica. A Escritura afirma explicitamente a Tradição oral e reconhece que nem tudo foi escrito.

Além disso, o Novo Testamento foi escrito, reconhecido e interpretado no seio da Igreja. Separar Bíblia e Igreja é minar o fundamento da própria Escritura.

Não se trata de Bíblia contra Igreja, mas da Bíblia vivida, transmitida e interpretada dentro da Igreja.


Síntese filosófico-teológica


Santo Agostinho define o sacramento como sinal visível de uma graça invisível e reconhece a Igreja como mãe e mestra. São Tomás ensina que a graça cresce por perfeição gradual e que a autoridade é necessária para a unidade.

A filosofia de Aristóteles fornece a chave conceitual: todo ser tende da potência ao ato. O Batismo insere o fiel na vida divina; a Crisma atualiza essa vida para o combate espiritual e o testemunho público.


Conclusão


Pode-se afirmar com segurança que a Crisma possui fundamento bíblico real, ainda que não ritualisticamente detalhado, é confirmada pela Tradição apostólica, definida pelo Magistério e explicada com rigor pela teologia clássica.

A objeção “não está na Bíblia” ignora a autoridade da Igreja, a Tradição reconhecida pela própria Escritura e o processo de formação do cânon.

Não se trata de Bíblia contra Igreja, mas da Bíblia vivida e interpretada dentro da Igreja, sob a ação do mesmo Espírito Santo que desceu sobre Cristo no Jordão e continua a agir nos sacramentos.


Referências


Bíblia: Isaías 42,1–7; Salmo 28(29); Atos 10,34–38; Mateus 3,13–17Atos 8,14–17; 19,5–6Hebreus 6,1–2Lucas 24,49; João 20,22; 21,25

Magistério: Catecismo da Igreja Católica, §§ 1285–1321Concílio de Trento, DH 1628

Patrística: Hipólito de Roma, Tradição ApostólicaAmbrósio de Milão, De Mysteriis

Escolástica: Tomás de Aquino, Suma Teológica, III, q.72

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