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O Batismo do Senhor e a Crisma - O dom do Espírito Santo na vida cristã

As leituras do Domingo do Batismo do Senhor (Is 42,1–4.6–7; Sl 28[29]; At 10,34–38; Mt 3,13–17) apresentam de modo explícito a descida do Espírito Santo sobre Cristo no momento do seu Batismo.


Essa realidade suscita uma questão teológica recorrente: se o Espírito Santo é recebido no Batismo, como a Igreja pode ensinar que existe um sacramento distinto — a Crisma — no qual o fiel recebe a plenitude do Espírito Santo?


A questão exige distinguir cuidadosamente entre:

  • o evento cristológico;

  • a comunicação do Espírito na história da salvação;

  • a economia sacramental própria da Igreja.


Sem essa distinção, corre-se o risco de opor indevidamente Batismo e Crisma ou de reduzir a Crisma a um acréscimo meramente disciplinar.



O Batismo do Senhor: evento cristológico, não modelo ritual direto


No Evangelho segundo Mateus, Jesus é batizado por João, o Espírito Santo desce sobre Ele em forma visível, e a voz do Pai o proclama Filho amado (Mt 3,13–17).


Trata-se de um evento de caráter manifestativo: nele, Cristo não recebe algo que lhe faltava, mas manifesta publicamente quem Ele é.


Cristo não é batizado para remissão dos pecados, nem para receber a graça santificante. Ele é o Filho eterno, consubstancial ao Pai, e possui o Espírito em plenitude. O Batismo no Jordão é uma epifania trinitária e uma investidura messiânica.


Isaías já havia anunciado esse momento:

“Eis o meu servo, sobre quem pus o meu Espírito.” (Is 42,1)

Atos dos Apóstolos confirma:

“Deus ungiu Jesus de Nazaré com o Espírito Santo.” (At 10,38)

Essa unção não é gradual nem mediada pela Igreja; ela pertence à identidade única de Cristo como Messias.

Portanto, o Batismo do Senhor não estabelece diretamente a forma ritual dos sacramentos cristãos, mas revela a fonte de onde eles procedem.


Cristo como fonte do Espírito e a Igreja como mediadora sacramental


Há uma diferença essencial entre Cristo e os fiéis. Cristo não recebe o Espírito por participação; Ele é aquele que o comunica. A Igreja, por sua vez, distribui o dom do Espírito segundo a economia sacramental instituída por Cristo e desenvolvida sob a ação do Espírito Santo.


Os fiéis recebem o Espírito:

  • de modo real e verdadeiro no Batismo;

  • de modo participativo, progressivo e ordenado a finalidades distintas.


Por isso, a Igreja nunca ensinou que o Batismo seja “incompleto” ou que nele o Espírito Santo não seja dado. O que se ensina é que a graça batismal, embora plena em si mesma, é ordenada a um crescimento e a um fortalecimento específicos.


Fundamentação bíblica da distinção entre Batismo e Crisma


  • A comunicação distinta do Espírito nos Atos dos Apóstolos


Em Atos 8,14–17, os samaritanos já haviam sido batizados, mas o Espírito Santo ainda não lhes havia sido comunicado por meio da imposição das mãos dos Apóstolos. O texto afirma explicitamente que, após esse gesto, “eles recebiam o Espírito Santo”.


O mesmo ocorre em Atos 19,5–6, quando São Paulo impõe as mãos sobre discípulos já batizados, e o Espírito Santo vem sobre eles de modo novo e perceptível.


Esses textos demonstram:


  • a distinção real entre Batismo e um rito posterior;

  • a mediação apostólica;

  • a objetividade da comunicação do Espírito;

  • a existência de efeitos espirituais próprios.


  • Fundamento cristológico nos Evangelhos


Após a ressurreição, Cristo sopra sobre os Apóstolos e diz:

“Recebei o Espírito Santo.” (Jo 20,22)

No entanto, também lhes ordena:

“Permanecei na cidade até que sejais revestidos da força do alto.” (Lc 24,49)

Mesmo os Apóstolos:


  • já criam;

  • já tinham sido enviados;

  • já haviam recebido o Espírito de algum modo;


mas aguardavam um fortalecimento específico para a missão. Isso confirma a lógica da comunicação progressiva do Espírito segundo finalidades distintas.


Termos originais fundamentais


  • Χρίσμα (chrísma)


O termo grego chrísma significa “unção”. Aparece em 1Jo 2,20.27 e indica uma consagração real pelo Espírito Santo, não apenas um símbolo exterior. Daí deriva o nome Crisma, que designa tanto o óleo consagrado quanto o sacramento.


A unção expressa a participação na missão de Cristo como Sacerdote, Profeta e Rei.


  • Ἐπίθεσις τῶν χειρῶν (epíthesis tōn cheirōn)


A expressão significa “imposição das mãos” e aparece em At 8,17 e Hb 6,2. A Carta aos Hebreus inclui a imposição das mãos entre os fundamentos da doutrina cristã, o que demonstra seu caráter apostólico e estruturante.


  • Confirmatio (latim)


Na tradição latina, o termo confirmatio enfatiza o efeito do sacramento: fortalecimento, ratificação e estabilidade espiritual. A Crisma confirma o batizado na fé e na pertença eclesial.


A Crisma na Tradição e no Magistério


  • Padres da Igreja


Santo Hipólito de Roma descreve, na Tradição Apostólica, a unção pós-batismal realizada pelo bispo. Santo Ambrósio, em De Mysteriis, ensina que a unção completa o Batismo com o dom do Espírito Santo.


Desde os primeiros séculos, a Igreja reconhece um rito distinto, ligado à autoridade apostólica.


  • Magistério da Igreja


O Catecismo da Igreja Católica ensina que:


  • a Confirmação aperfeiçoa a graça batismal (§1285);

  • concede uma força especial do Espírito Santo (§1288);

  • liga mais perfeitamente à Igreja (§1316).


O Concílio de Trento define a Confirmação como verdadeiro sacramento, distinto do Batismo (DH 1628).


A Crisma na Suma Teológica de São Tomás de Aquino


Na Suma Teológica (III, q.72), São Tomás ensina que a Confirmação é dada para a perfeição da vida espiritual. Ele utiliza a analogia do crescimento humano: o Batismo corresponde ao nascimento espiritual; a Confirmação, à maturidade.


Tomás afirma ainda que o bispo é o ministro ordinário da Confirmação, por causa da sucessão apostólica e da unidade da Igreja. O sacramento imprime caráter espiritual permanente, como o Batismo e a Ordem.


“Isso não está na Bíblia?” – A resposta bíblica da Igreja


A objeção de que a Crisma “não está na Bíblia” ignora dados fundamentais da própria Escritura.

Cristo confere autoridade à Igreja (Mt 16,18–19; 18,18), afirma que quem ouve os Apóstolos ouve a Ele (Lc 10,16), e São Paulo chama a Igreja de “coluna e sustentáculo da verdade” (1Tm 3,15).


Além disso, a Escritura reconhece explicitamente a Tradição oral (2Ts 2,15) e afirma que nem tudo foi escrito (Jo 21,25). O Novo Testamento foi escrito, canonizado e interpretado pela Igreja.

Negar a autoridade da Igreja é minar o fundamento da própria Bíblia.


Síntese filosófico-teológica


Santo Agostinho define o sacramento como sinal visível de uma graça invisível e reconhece a Igreja como mãe e mestra. São Tomás de Aquino ensina que a graça cresce por perfeição gradual e que a autoridade é necessária para a unidade.


Aristóteles fornece a chave filosófica: todo ser tende da potência ao ato. O Batismo insere o fiel na vida divina; a Crisma atualiza essa vida para o combate espiritual e o testemunho público.


Síntese conclusiva


Pode-se afirmar com segurança que:

  • a Crisma tem fundamento bíblico real, ainda que não ritualisticamente detalhado;

  • é confirmada pela Tradição apostólica;

  • definida pelo Magistério;

  • explicada com rigor pela teologia escolástica.


A objeção “não está na Bíblia” ignora a autoridade da Igreja, a Tradição reconhecida pela própria Escritura e o processo de formação do cânon.


Não se trata de Bíblia contra Igreja, mas da Bíblia vivida e interpretada dentro da Igreja.


Referências


Bíblia

  • Is 42,1–7; Sl 28(29); At 10,34–38; Mt 3,13–17

  • At 8,14–17; 19,5–6

  • Hb 6,1–2

  • Mt 16,18–19; 18,18

  • Lc 10,16; 24,49

  • Jo 20,22; 21,25

  • 1Tm 3,15; 2Ts 2,15

Magistério

  • Catecismo da Igreja Católica §§1285–1321

  • Concílio de Trento, DH 1628

Patrística

  • Hipólito de Roma, Tradição Apostólica

  • Santo Ambrósio, De Mysteriis

Escolástica

  • São Tomás de Aquino, Suma Teológica, III, q.72

 
 
 

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