Unidade da revelação, lei, justiça e violência no velho testamento
- Diogo Sperandio
- há 4 horas
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Introdução – O problema teológico
Uma das dificuldades mais recorrentes na leitura da Bíblia é a aparente contradição entre, de um lado, a imagem de Deus no Antigo Testamento, marcada por leis severas e punições duras, e, de outro, a revelação plena de Deus em Jesus Cristo, centrada na misericórdia, no amor e no perdão.
Essa tensão conduz à pergunta central: o Deus do Antigo Testamento é o mesmo Deus revelado por Jesus Cristo? E, se assim é, como compreender as leis e punições severas dentro da revelação divina?
Essa não é uma questão moderna. Ela já apareceu nos primeiros séculos do cristianismo e foi respondida de modo claro pela Igreja: Deus é um só, e a Revelação é una, embora comunicada de forma progressiva.

A Revelação como processo pedagógico
São Paulo oferece a chave interpretativa fundamental ao afirmar:
“A Lei foi nosso pedagogo até Cristo.”(Gálatas 3,24)
A revelação divina não acontece de maneira imediata e total, mas se desenvolve gradualmente, respeitando a maturidade espiritual da humanidade ao longo da história da salvação.
Por isso, pode-se dizer que o Antigo Testamento prepara, o Novo Testamento manifesta plenamente, e Cristo se torna a chave de leitura de toda a Escritura. O Antigo Testamento não é descartado nem anulado; ele é cumprido, purificado e elevado em Cristo.
Em termos simples, Deus não muda de intenção nem de natureza. Ele educa, conduz e forma, como um pai que acompanha o crescimento do filho até a maturidade.
O sentido da Lei no Antigo Testamento
A Torá como instrução, não mero código penal
O termo hebraico תּוֹרָה – Tôrāh (pronúncia aproximada: tô-rá) significa instrução, ensino, direção formativa.
A Torá não deve ser entendida apenas como um conjunto de normas punitivas, mas como um projeto educativo destinado a formar um povo santo. Seu objetivo era preservar Israel da assimilação religiosa, garantir a fidelidade à verdadeira fé e conter a violência de um mundo antigo profundamente marcado pela brutalidade.
Israel não existia em um vácuo moral. Estava cercado por culturas nas quais sacrifícios humanos, vingança ilimitada e violência ritual faziam parte da vida religiosa e social. Muitas leis que hoje parecem duras funcionavam, naquele contexto, como limites concretos à barbárie.
Justiça bíblica e categorias modernas
O conceito bíblico de justiça
O termo hebraico מִשְׁפָּט – Mishpāṭ (pronúncia aproximada: mish-pát) designa a ordem justa que preserva a aliança.
Na Bíblia, justiça não é entendida de modo sentimental nem reduzida à subjetividade individual. Trata-se de uma realidade objetiva, comunitária e orientada à fidelidade ao pacto com Deus.
Ler os textos bíblicos antigos a partir de categorias morais modernas, sem a devida mediação histórica, leva inevitavelmente a distorções. A Escritura foi dada para ordenar um mundo real, marcado por violência e desordem, e não para se adequar a sensibilidades de épocas futuras.
A lógica da Aliança
Berît: pacto com bênçãos e maldições
O termo hebraico בְּרִית – Berît (pronúncia aproximada: be-rít) significa pacto juridicamente selado.
No mundo antigo, toda aliança envolvia promessas, deveres e sanções reais em caso de ruptura. Sem essas consequências concretas, o pacto perderia sua força vinculante.
As punições severas presentes no Antigo Testamento não expressam crueldade divina, mas refletem a forma jurídica e pedagógica própria daquele contexto histórico, necessária para garantir a sobrevivência espiritual do povo da aliança.
Deus não muda: o homem é que muda
São Tomás de Aquino ensina que Deus é imutável em sua essência, embora sua ação se manifeste de modos diversos conforme a disposição das criaturas:
“Deus é imutável em sua essência, mas age diversamente conforme a disposição das criaturas.”(Suma Teológica, I, q.9, a.1)
Isso significa que Deus não se torna mais misericordioso no Novo Testamento. O que muda é a capacidade humana de acolher uma revelação mais profunda. A misericórdia sempre esteve presente; ela apenas se manifesta de modo mais pleno quando o homem está preparado para recebê-la.
A dureza da Lei e a dureza do coração humano
O próprio Cristo esclarece essa dinâmica ao dizer:
“Foi por causa da dureza do vosso coração que Moisés permitiu isso.”(Mateus 19,8)
As leis severas refletem um estágio inicial da consciência moral, a necessidade de conter o caos social e a realidade de um povo recém-saído de formas culturais marcadas pela violência. Elas não expressam aquilo que Deus deseja em si mesmo, mas aquilo que era possível dentro daquele momento histórico.
Justiça temporal e condenação eterna
Um ponto decisivo, frequentemente ignorado, é a distinção entre pena temporal e condenação eterna.
São Tomás de Aquino afirma:
“A morte corporal pode ser pena justa sem implicar injustiça divina.”(Suma Teológica, II-II, q.64, a.2)
Como autor da vida, Deus pode permitir sua cessação no plano temporal sem cometer injustiça moral. A punição histórica não equivale ao juízo definitivo sobre a alma, que pertence somente a Deus.
O que muda radicalmente com Cristo
O Evangelho expressa com clareza a novidade decisiva trazida por Cristo:
“A Lei foi dada por Moisés; a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo.”(João 1,17)
Em Jesus, Deus não apenas legisla; Ele entra na história. Assume a violência do mundo, sofre suas consequências e morre injustamente. O mesmo Deus que antes punia o pecado agora assume, em si mesmo, as consequências do pecado humano.
A justiça divina não é abolida, mas plenamente realizada quando o próprio Deus, feito homem, se oferece na Cruz.
Conclusão
O Antigo Testamento não revela um Deus cruel, mas um Deus pedagogo, que conduz a humanidade de forma progressiva, respeitando seus limites históricos e morais.
As leis severas e as punições duras não expressam sadismo divino. Elas refletem a dureza do coração humano, servem à preservação da aliança e preparam o caminho para a revelação plena em Cristo.
Em Jesus, Deus não muda; Ele se revela por inteiro. O Deus que antes julgava agora assume o juízo, mostrando que a verdadeira justiça divina encontra sua plenitude não na violência, mas no amor que se entrega.
Essa é a profunda coerência entre Antigo e Novo Testamento, reconhecida pela Escritura, pela Tradição, pelo Magistério e pela teologia clássica.
Referências
Bíblia
Gálatas 3,24
Mateus 19,8
João 1,17
Escolástica
São Tomás de Aquino, Suma Teológica, I, q.9, a.1
São Tomás de Aquino, Suma Teológica, II-II, q.64, a.2



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